Mostrar mensagens com a etiqueta desordem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta desordem. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 19 de maio de 2009

A visita


Arrependi-me. De os ter levado ao Museu das Comunicações. O museu é excelente e importantíssimo, nesta época de comunicação, em que já poucos se lembram - e os jovens ignoram - como era comunicar há 15 ou 30 anos. Os miúdos deliraram com os telefones de disco rotativo - que lá existem para experimentar - mas tiveram bastante dificuldade em perceber como discar os números... 

Portaram-se muito mal. Tocavam em tudo, dispersavam-se, conversavam, entornavam água nas mesas, gritavam o tempo todo, atiravam-se para cima dos sofás. Enfim, uns selvagens, incapazes de se portarem socialmente. O que vale é que as guias eram tesas e conseguiram, ainda assim, impôr-lhes algum respeito e contenção. As outras turmas com quem nos cruzámos comportavam-se ordeiramente. Senti-me envergonhada. Nunca mais.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A fila


A indisciplina de quinta-feira (e a minha irritação evidente) teve uma resposta hoje. Nas três aulas que dei à turma de 7º ano, fi-los formar fila, por ordem numérica, antes de entrarem na sala. Reagiram mal, resistiram, que não estavam no jardim infantil, diziam, mas parecem, respondia eu, e levou 10 minutos a obrigá-los a enfileirar, com boicotes sucessivos, encostos, encontrões, etc. 

Depois ordenei a entrada na sala em silêncio. Em vão. Após entrarem, começam como habitualmente a falar alto. Mas as aulas foram mais calmas. Expliquei-lhes que se não souberem andar em fila e obedecer não posso levá-los pela rua à visita de estudo que será dentro de duas semanas. Mas, sobretudo, consegui dominar-me para aguentar as 7-sete-7 aulas do dia sem a menor exaltação. Ao fim do dia, ainda guardava a sanidade mental. 

Quem levou por tabela foi a psicóloga que não conseguia calá-los depois da aula de matemática onde vários tiveram faltas disciplinares; mas conseguiu apesar de tudo, com mais facilidade do que eu, enfileirá-los para um jogo. Pergunto-me se todos estes jogos psico-sociais não servem realmente para infantilizar os miúdos e lhes dar a percepção de que tudo é uma brincadeira. Afinal, a fila à moda antiga é uma forma de aprender três requisitos fundamentais do ensino: ordem, autodisciplina, silêncio. O que falta em absoluto.

terça-feira, 3 de março de 2009

Sala de professores



Num intervalo, desabafa uma professora:
- Fui dar teste aos miúdos e não queriam ficar em carteiras separadas. Agora eles é que decidem onde ficam. Estavam lá atrás a carregar os telemóveis, não pude fazer nada...
Eu pergunto:
- Mas não lhes tiraste os telemóveis?
- Agora não se pode!
- Podes, sim, e devolvem-se no fim da aula.
- Eles não deixam. E ainda me disseram: "Vá para o ...alho". Isto é impossível.
- E o que fizeste? Não mandaste sair com falta disciplinar?
- Não. Para quê? Depois o Conselho Executivo diz que devia ter aplicado medidas correctivas antes.
- Mas assim eles vão repetir e fazer pior.
- Olha, quando chegarem ao 7º ano, vocês ensinam-nos.
- Aí já é tarde.
- Pois, mas sabes, é que um dos parâmetros da avaliação é os problemas disciplinares que temos. Estás a ver, para mim é mais importante subir de escalão, já estou parada neste há 8 anos. Não julgues que os professores do 5º escalão são tratados aqui de maneira igual aos do 10º.

Fiquei sem palavras, estarrecida.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Antevisão



Notícias do nosso mundo:

Uma menina de 10 anos teve que receber tratamento depois de ter sido espancada. Agressão foi praticada na própria escola e os agressores apontados pela garota são quatro alunos, seus colegas. (10 de Fevereiro)

Um professor de Inglês foi agredido, ontem ao final da tarde quando saia o portão da escola, alegadamente, pelo tio de um aluno do 5º ano que tinha sido expluso da aula por estar a fazer barulho. (11 de Fevereiro)

Os epifenómenos dos caos nas escolas começam a chegar aos meios de comunicação; ainda bem. Pode ser que se comece a perceber que o ambiente que hoje aí se vive é a antevisão do que será a sociedade daqui a 5 ou 10 anos, quando estas crianças crescerem - sem regra, sem instrução, sem competências - e começarem a incendiar as ruas. Então, só saberão entender uma lei: a lei da força (que andam hoje a aprender na escola). Então as pessoas clamarão por um estado policial.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O medo



Dia após dia o véu que encobre as vergonhas revela um caso mais outro caso: os miúdos são agredidos pelos colegas e calam-se por intimidação; os professores assistem a distúrbios e calam-se nem sei porquê, acossados por não sei que receios, talvez de serem mal vistos - ou de serem mal avaliados? Mas esquecem-se que têm por testemunhas os alunos - e contribuem assim para o descrédito da sua autoridade.

O número de participações disciplinares que recebo já excede a minha capacidade para tratar os conflitos com os intervenientes; os problemas acabam por submergir na avalanche; a impunidade cresce na proporção directa da inoperância dos mecanismos de controle. O ambiente social escolar é cada vez mais agressivo. O desespero dos professores manifesta-se mais agudamente e alguns claudicam.

A incapacidade para resolver os problemas traduz-se agora numa angústia ouvida repetidamente: o que será esta geração quando crescer e o que serão os filhos desta geração? Nada conseguem aprender; por causa do ambiente tumultuoso das aulas, por causa do desinteresse pela aprendizagem, por falta de autoridade dos pais e dos professores. A escola, onde passam de ano somando lacunas e insuficiências, está desvalorizada. Geram-se hierarquias marginais entre alunos, gangs de pressão.

Sabemos que o medo é o pasto dos fascismos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A substituição



Na minha bela turma de 7º ano, faltou uma professora e tiveram aula de substituição. Só sei que os anjinhos da turma armaram uma zaragata de todo o tamanho. Dois dos miúdos estavam perto da carteira da professora a ver não sei o quê, um terceiro, o chamado "chato", aproximou-se; então o anjinho nº1 disse ao anjinho nº2 que o anjinho nº3 (o chato) lhe tinha feito os cornos atrás da cabeça (o que era pura mentira); o nº 2, que é muito infantil ainda, atirou-se e ele; lá os separaram; mas o ofendido não desistiu e - como uma aula de substituição tende a descambar em território sem lei - voltou à carga; atiram-se mais uns 3 ou 4 a separá-los, caem carteiras e o anjinho nº2 parte os óculos. "A professora não fez nada", queixa-se uma menina.

A seguir tiveram Assembleia de Turma comigo e eu fiz mais uma audiência formal e ouvi todas as testemunhas e, por final, os anjinhos. A tónica dos discursos era apurar quem tinha a culpa: o nº1, o nº2 ou o nº3. Expliquei-lhes que todos tinham uma parte de culpa. E tentei mais uma vez mostrar que se andam a bater-se alguém há-de ficar magoado. E agora quem vai pagar os óculos, perguntei-lhes.

Lembrei-lhes que outro miúdo da turma (o diabinho nº1) estava em casa de braço partido por causa de um pontapé no andebol (de agressão, pois). «Querem ir mesmo parar ao hospital? Olhem que não tem muita graça».

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Provocação



Veio pela segunda vez a uma aula nos últimos dois meses, depois de ter faltado ao teste. Perguntei-lhe se tinha intenção de fazer o teste de recuperação, ou se ficava com o "módulo" por fazer. Declinou. Não estranhei muito. Quase metade da turma do curso profissional abandonou as aulas, porque realmente não estão nada interessados e só aparecem para chatear. Eu e os outros professores lamentamos que estes calões maiores de idade dêem tão pouco valor a um curso que lhes é oferecido com o dinheiro dos contribuintes para promover a sua qualificação profissional, quando eles - que já podiam estar a trabalhar - ocupam o lugar de outros, mas não fazem mais do que fumar charros à porta da escola, enquanto mastigam a sua "revolta" incompreensível contra os professores, graças - suponho - à mesada que os pais lhes dão.

Tinha começado a aula, quando irrompe um som forte de gemidos (pornográficos) de mulher. Mais uma provocação. Imediatamente, circundo a sala para perceber de onde vem o som e percebo que é de um computador lá trás. Desligo-o logo e comento: "Não sei quem foi o idiota que ligou isto" (evitando dizer "estúpido"). Controlo a leve irritação e continuo a aula. (Poderia ter armado um pé-de-vento, feito uma participação disciplinar colectiva e tentado obter uma denúncia; mas tal não me ocorreu). Continuei como se nada me tocasse.

Meia hora mais tarde, alguém diz qualquer coisa (que eu não percebi), todos riem; comento que «não percebi a piada» e mando-os calar, avisando que não quero mais risos até final da aula; o aluno-turista reincide nas risadas; aviso-o: "É a segunda vez que te aviso"; começa a protestar alto e com mau-modo que os outros podem e ele não, fazendo o papel do injustiçado - que parece ser o prato preferido dos desacatos destes homenzinhos com problemas de auto-estima; ouço-o até ao fim e respondo: "Já é demais, podes sair da aula". Satisfeito com a sua performance, ele sai sorridente, eu marco-lhe falta disciplinar e, mais tarde, faço uma participação ao DT. Suspeito que foi à aula só para me fazer aquela partida; ou para vingar o amigo da outra turma que eu suspendi por 10 dias...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O processo (3)



Na turma de 7º ano em que sou DT, há um miúdo em quem todos batem. Já tentei resolver o problema por diferentes maneiras: no colectivo da turma e em particular com os alunos envolvidos; já avisei a mãe do menino, já sinalizei o psicólogo da escola; já combinei tréguas entre os dois principais beligerantes de 12 anos, quando eles se queixaram que "isto já vem desde o infantário"... Mas a tourada continua.

Hoje, na aula de Formação Cívica, fiz um "tribunal" em que cada um dos contendores tinha um advogado sentado a seu lado e falavam à vez, quando a audiência impaciente não interrompia e eu impunha a ordem gritando mais alto. Ouvimos várias testemunhas. Acontece que o rapaz é batido nos corredores, mas dentro das aulas retalia com palavras que levam os demais ao rubro. Expliquei peremptoriamente que às provocações se deve responder com o desprezo, virando costas; que o pior que se pode fazer a um provocador é não lhe ligar; e que isso o fará desistir em pouco tempo. Pode-se, no máximo, responder à letra, com outras palavras, mas nunca bater, porque isso já é caso para chamar a polícia.

Mas não me entendem, ou não os entendo eu. Apesar de terem tentado manter tréguas, diz o outro que não conseguiu controlar-se, porque o colega insultara a sua mãe. E nisto gera-se o burburinho e do meio da turma vários se insurgem: que quem dissesse alguma coisa acerca da sua mãe, levava logo! Volto a insistir: «Quando vos chamam "filho da mãe", não estão a insultar a vossa mãe, estão só a provocar-vos; são só palavras». Em vão. Grande agitação na sala. Enfureço-me já: «Se vos chamam "filho da puta", chamam de volta "filho da puta da puta". Mas o melhor é virar costas. Bater é que não».

Ao usar as palavras malditas, quis desmistificar o insulto. No dia seguinte, já uma colega me contava que os alunos achavam que se podia dizer asneiras porque a DT tinha dito... Também no conselho executivo já sabiam da história. Na próxima aula de língua portuguesa vou ter que levar um dicionário para explicar que existem todo o tipo de palavras, mas que o seu uso depende do contexto em que são permitidas ou aceites.

Ao fim do dia recebi a mãe da criança e expliquei ao rapaz que tem que deixar de provocar os colegas: «Senão qualquer dia ainda vais parar ao hospital com uma pedrada na cabeça». «Como o outro», concluiu o miúdo...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O Processo (2)



Faltou à primeira audição. Enviei nova convocatória por correio registado. Telefonei duas horas antes a saber se ia estar presente (não queria perder o meu tempo). Chegou com 10 minutos de atraso. Entrou no edifício (um anexo da escola) a chamar "Ó da casa!" Tomei o meu tempo, saí pelo corredor estreito, perguntei o que queria, identifiquei-o, identifiquei-me e disse-lhe que esperasse um pouco, apontando para duas cadeiras no átrio. Regressei à sala onde, por acaso, estava a DT, que mais uma vez me avisou: "Ele é impossível, muito bruto, tem cuidado". Fi-lo esperar um pouco. Nem dois minutos passaram, já devia espumar de impaciência e gritava "Ó s'tora!" e qualquer coisa que nem percebi. Tomei o meu tempo, dei a volta pela sala anexa e abri outra porta que dá para átrio. "Entre".

Com a maior das neutralidades, disse-lhe "Sente-se". Expliquei-lhe - qual funcionária da Loja do Cidadão - que iria ouvi-lo por causa do ocorrido da aula tal de dia tal da professora tal, e que no fim lhe pediria para assinar o depoimento. Pareceu mais calmo. Li-lhe então os factos de que era acusado, resumidos a 4 pontos. Ouviu atentamente e respondeu logo, ponto por ponto, sem falhas. Negou que tivesse dito palavrões na aula, só lá fora, alegando que não foram dirigidos à professora; só hesitou quanto às ameaças que fizera à professora, dizendo que não se lembrava, mas "era capaz"...

Em seguida dei-lhe a participação a ler. Negou de novo que tivesse dito os palavrões que lá estavam entre aspas. Chamou cínica à professora, por ela ter escrito que sempre o tentara ajudar e o tratara com respeito. Queixou-se então de ser injustiçado, porque a professora tinha preferências e deixava os colegas ouvir música com auriculares e a ele não. Perguntei-lhe se não achava que a professora também se sentira injustiçada. Não respondeu. Insisti: "É assim que trata a sua mãe?" (Já tinha a pergunta preparada de antemão.) Ele ia a responder que sim, mas reformulei logo a pergunta: "Gostava que tratassem assim a sua mãe?" Não respondeu. Não mostrou arrependimento.

Disse-lhe que teria que esperar um quarto de hora para eu poder passar as notas para o computador. Ele anuiu um pouco contrariado e impaciente. Quando voltou, leu em silêncio a minha acta e assinou, sem reparos, tudo o que antes dissera. Maior de idade.

Como já tinha ouvido dois alunos enquanto testemunhas da ocorrência, eu sabia que ele estava a mentir. (Enfim, tecnicamente falando, já que não me passaria pela cabeça duvidar da verdade das queixas da professora.) As testemunhas só não confirmaram as ameaças que ele admitiu. O seu "currículo" escolar é uma colecção de actos agravantes. Nenhuma atenuante encontrei, nem a mínima intenção de mudar de comportamento. Propus 10 dias de suspensão (pena máxima), considerando que insultar um professor é de gravidade máxima e que ameaçar é um acto passível de procedimento criminal; e visto que a transferência é só para casos em que está em perigo a tranquilidade ou segurança da escola.

Foi uma semana atrapalhada, em que não me sobrou tempo para mais nada. Mas achei graça a fazer de "inspectora".

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O processo (1)



Para instaurar um "procedimento disciplinar" a um aluno é nomeado um "instrutor" que deve no prazo de 5 dias úteis averiguar os factos, convocar os interessados, nomeadamente e "obrigatoriamente" o aluno e seu encarregado de educação, bem como as testemunhas que entender necessárias para produzir a "prova". Ouvidas em "audiência", deve lavrar os "autos" que serão assinados pelos próprios, bem como a notificação-convocatória.

O aluno deve ser convocado com dois dias úteis de antecedência (por correio registado com aviso de recepção). No termo da instrução, o professor instrutor, juiz em causa alheia, deve propor uma sanção (ou não), que será comunicada ao presidente do Conselho Executivo que tomará a decisão final ou convocará o Conselho de Turma. O processo é confidencial e "inicia-se e desenvolve-se com carácter de urgência, tendo prioridade sobre os demais procedimentos correntes da escola".

Não foi por isso que deixei de dar aulas, mas mal tive tempo para as preparar. Esta semana passei na escola 44-horas-44. Acusado de insultar repetidamente várias professoras, o aluno, maior de idade, faltou à audiência.

domingo, 28 de dezembro de 2008

O medo de existir + a não-inscrição



Após o episódio da pistola na Escola do Cerco, parece que finalmente se começou a falar do principal problema da educação, que tem andado a ser escamoteado:

“E é preciso ter a noção que muito casos são abafados pelas escolas, que tentam apresentar números de sucesso e preferem não atacar os problemas de frente”, conta uma outra fonte policial contactada pelo DN. “Muitas das situações são relatadas às autoridades apenas por interposta pessoa, ou então quando surgem na internet ou na comunicação social, o que torna muito difícil o nosso trabalho”, continua». (Diário de Notícias, 27-12-2008)

«Há que ser sincero e realista: não são nada esporádicos os casos em que as estatísticas da violência e indisciplina em meio escolar são abafadas logo na origem, porque existem órgãos de gestão que não gostam de entrar na lista negra dos organismos regionais e centrais do ME. Quantas vezes há participações disciplinares que acabam por não ser feitas, quantos processos acabam por ser arquivados, quantas ocorrências desocorrem apenas porque há avisos e conselhos do género, olha-lá-que-é-capaz-de-ser-pior-para-ti-e-para-todos… ou não-queres-que-se-saiba-isso-pois-não?» (Paulo Guinote)

«Neste momento há um factor a acrescentar. As escolas têm medo de perder a alunos se os casos forem tornados públicos. E nisto colaboram or orgãos de gestão e alguns professores.Não percebem que estão a atirar o lixo para debaixo do tapete. Uma qualquer oclusão cerebral cria-lhes a ilusão que nada se saberá. Obviamente que estão enganados. Tudo se sabe, e os pais retirarão os filhos dessas escolas, exactamente por nada ter sido feito. A atitude tomada com o objectivo de não perder alunos fará perder muitos mais». (comentário)

«O pessoal está a sair do armário!! A indisciplina está generalizada na escola! É verdade que os executivos tentam mistificar as coisas para não estragar a imagem! Na minha escola os CEFs são indescritiveis!» (comentário)

«Enquanto não nos levantarmos em força contra a guerra civil que se vive nas escolas… merecemos!» (comentário)

«Tal como demonstrado em vários estudos, se a falta de disciplina não for atacada cedo, tende a agravar-se e a generalizar-se por efeito de contágio.» (comentário)

«Os alunos sentem-se sempre inseguros ao denunciar este tipo de problemas. Está algo podre nas nossas escolas…E é já há algum tempo.» (comentário)

«Na minha escola vejo instalar-se, mês após mês, ano após ano, a lei da selva, a lei do mais forte. As cenas de pancadaria repetem-se, tornam-se rotina, com os responsáveis a gozar de toda a impunidade.» (comentário)

«Achei o filme “A Turma” muito soft, nós temos material para um filme daqueles com muito mais acção.» (comentário)

«O filme é soft. Quem fica impressionado com aquilo não faz ideia de muito do que passa por aí.» (Paulo Guinote)

«Dito de outra forma, maus mesmo são os telemóveis que "filmam". Se os proibirem nas aulas, acabam magicamente os "problemas". O que não se vê, não existe.» (Portugal dos pequeninos)

«O que parece preocupar as autoridades escolares não são os episódios desta natureza mas sim a sua divulgação. Se não forem divulgados, não existem. A escola pública está num estádio de negação da realiadade. A avaliação dos professores é a fingir; a avaliação dos alunos caminha para tal; a indisciplina e a violência sobre professores, funcionários e alunos só existe quando é filmada.» (Ramiro Marques)

«Todos sabemos que a maior parte das ocorrências não são relatadas. Os professores ouvem todo o tipo de insultos e de ameaças dentro das salas de aulas e raras vezes participam das ocorrências. Porquê? Toda a gente sabe que um professor que participe de uma ocorrência dessas é um docente marcado. Com a ameaça da avaliação burocrática de desempenho, isso pode significar um irregular. Certamente, o impedirá de ter acesso a um Muito Bom.» (Ramiro Marques)

E José Gil sobre a não-inscrição: « -A não-inscrição neste caso é o Governo ignorar isso tudo? - Totalmente. É um exemplo típico de não-inscrição. Totalmente. Não só não-inscrição. Há pior do que isso.» (Correio da Manhã, 28-12-2008)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A lei da selva



Último dia de aulas. Os alunos organizaram uma festa, com muitas sandes e bolos caseiros. Às cinco da tarde começa a música a bombar. Os professores que iam dar as aulas do fim do dia dizem: «Mas como é que se pode dar aula com este barulho todo?» Deixam os alunos sair. E subitamente - neste território onde não é habitualmente permitido os alunos andarem pelos corredores - juntam-se centenas de miúdos excitadíssimos e em correrias por todo o lado. No exterior, começa a porrada. Professores e auxiliares metem-se à confusão. Já há miúdas a chorar e rapazes aleijados. A multidão junta-se em grande agitação. Um pai - o pai do miúdo mau - já quer bater não sei em quem e já o agarram furioso. Vem a direcção e levam-nos para cima.

Eu volto à zona da festa, a ver como as coisas estão. Nenhum adulto à vista. Explode um projector de luz. A música é logo retomada. De seguida, dois miudinhos começam a fazer esguicho do bebebouro apontando ao outro projector. Vejo aquilo e consigo agarrar um que puxo pela manga do casaco até ao Conselho Executivo, enquanto ele se debate agressivamente. Chego lá acima e - qual milagre - a polícia já lá está. O agente fala com o miúdo que, depois de muitos protestos, se acalma e senta. O polícia vai falando: «Tu portas-te assim com uma professora? Tu falas assim comigo que sou polícia? Tu não deves estar bom da cabeça». O miúdo tem uns 11 anos. Depois de muito apertado lá diz como se chama e de turma do 5º ano é. De repente chega um rapaz de uns 16 anos e bate no ombro do polícia que está agachado a falar com o puto. «O que que passa? Este é o meu irmão». O polícia levanta-se devagar, cresce diante do graúdo: «O senhor espere que já falo consigo». Impassível e ameaçador, o outro exige: «Quero saber o que é que fizeram ao meu irmão». «Espere que já falo consigo». Conclui a conversa com o miúdo e vai falar com outro, que nem o respeita nem o teme, nem se demove. Se é assim que tratam os polícias, como não tratarão os professores... Nunca visto.

Afasto-me. Uma colega diz-me: «Cuidado, Leonor, ao descer, que andavam a dizer que tinha batido no miúdo». Saio com algum receio. Enfrento com o olhar o outro miúdo que antes fez explodir o projector. São 18 horas, lá fora já está escuro e a miudagem anda agitada. Mal se vêem, mas ouvem-se bem, crianças frenéticas a correr atrás dos arbustos e dos carros. Como o jardim está mal iluminado, penso.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A não-inscrição



Afinal, venho a saber, por outra mãe que hoje marcou encontro comigo, que a mãe da outra menina há já um mês que ameaçou bater na filha desta, enquanto a outra filha andava a alvejar a "amiga" com sms insultuosos... «Há um mês? E não me disseram nada?», pergunto incrédula. «Disse à minha filha que não a incomodasse com isso, que já deve ter muito trabalho». Então é por isso que as miúdas não prestam atenção nas aulas, concluo.

E na semana passada a outra bateu na filha desta que chegou a casa a coxear com o pé inchado e com "negras". As filhas e as mães não acreditam já na autoridade escolar e ajustam contas por meios próprios. É que, explica-me esta mãe, a filha no ano passado já foi ameaçada com uma pistola - e o conselho executivo nada fez, diz-me ela, diante da minha estupefacção crescente. Mas nada se sabe nem se conta. As pessoas preferem não se queixar. Calam, ruminam, maldizem e agem individualmente para sobreviver. É esta novela que os jovens aprendem na escola.

Entretanto, diante das participações dos DT, ouço um colega dizer que não adianta suspender os alunos, porque daí a dias voltam para a escola e fazem o mesmo... Eu nem queria acreditar no que estava a ouvir. A suspensão de um aluno desordeiro é imprescindível para dar exemplo aos demais, para actuar com justiça e para repôr a calma na turma durante aqueles dias. O contrário é instituir a lei da selva.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O estado das coisas



A infeliz morte violenta acontecida na Casa Pia, na sexta-feira passada, é só a face mais visível do fenómeno de intimidação que governa o outro lado das escolas, sob o olhar incauto ou complacente dos professores. Acabava de perceber isso, quando soube a notícia. Na minha escola, também houve uma facada, mas acertou só no ombro... Aqui ainda não há gangs, comentava eu com uma colega que logo, baixando a voz, me diz: "Ai, há, há..." (E por que baixam a voz quando se fala dos problemas que se deviam dizer bem alto? Porquê o medo? Porquê o tabu?)

Hoje à tarde recebi uma mãe que me diz sem peias que pelas grades da escola se vende droga a miúdos de 10 anos e à vista de todos. Isto enquanto admoestava o filho: "Não te quero ver com esses miúdos". Fiquei estupefacta. Lembrei-me de uma professora na Musgueira que conheci na manifestação de 8 de Novembro e que me contou que via os alunos a passar droga nas aulas e nada podia fazer, com medo de retaliações dos papás, pois.

Assim percebo por que não é possível sequer prender a atenção ou o interesse dos miúdos nas aulas. Andam aflitos com outros problemas. Isto já não se chama escola.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O medo de existir (3)



Hoje, na Assembleia de Turma semanal, voltei ao assunto da "tourada" e reafirmei claramente:
1 - Ninguém pode bater em ninguém, nem perseguir, nem ameaçar, nem chatear; isso é bullying.
2 - Quem for agredido ou ameaçado tem que participar: a mim, em primeiro lugar, pois estou aqui para vos ajudar;
3- ou a um professor ou funcionário, ou ao conselho executivo; e se alguém vos agredir, podem chamar a polícia, ligam o 112.

De seguida, começaram a chover as queixas: que há miúdos que são mais importantes que outros porque são mais fortes e batem; que eles não podem contar porque os outros ameçam bater mais; que há miúdos que levam sempre, mesmo que não façam nada. Só não fiquei a saber quem bate em quem, pois tiveram o pudor de não os expôr. É isso que tenho que perceber nos próximos dias.

Caí em mim: eu não supunha, nunca tinha imaginado, não adivinhava pelas lutas de corredor - que estes miúdos pudessem viver num tal clima de intimidação física.

Ao sair da escola, dois polícias da Escola Segura tentavam acalmar um miúdo de 10 anos: «Se o fulano te ameaçar, telefonas-me, ouviste?», insistia o agente. O miúdo, cheio de baba, ranho e raiva, jurava que o outro havia de levar com uma pedrada, que não se ficava a rir. O polícia insistia: «Não faças nada, que depois é pior para ti».

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O medo de existir (2)



Desde que na semana passada debatemos - na aula de Formação Cívica - a questão da violência escolar, e eu afirmei peremptoriamente aos meus alunos - "estou aqui para vos ajudar, e todos os problemas que tiverem devem contar-me, ou devem participar, porque se não o fizerem é que nada se pode resolver" - desde esse dia começaram a chover pequenas queixas: aquele bateu, aquele roubou, aquele ameaçou...

Quando hoje levei, de novo para a aula de Formação Cívica, um texto sobre "bullying", já estava a ser ultrapassada pela realidade. Uma miúda refugiava-se no posto médico, depois de levar com um projéctil de uma colega no olho. Estava com medo de ir para a aula e sentei-a na minha mesa. Falaram vários, entre berros e chamadas de ordem (e nem houve tempo de ler o texto).

Uma miúda decidiu interpelar-me: «Ó setora, diga-me só: se lhe batessem, o que é que fazia?» Nunca me tinham feito tal pergunta, mas respondi: «Tentava fugir e pedir ajuda, fazia queixa». «A setora ficava-se?!» Percebi que ela também nunca tinha ouvido tal resposta. Fomos ambas surpreendidas uma pela outra. Na "ética" destes miúdos, uma pessoa que não dá troco quando "leva" não tem... valor, força, prestígio? Não sei, não entendi bem...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O medo de existir



Uns dias depois recebo o telefonema de uma encarregada de educação muito preocupada porque a sua criança de 12 anos anda doente, febril, com dores de cabeça, com medo - pois os alunos de secundário da professora cujo telemóvel foi roubado andam a pressionar, a ameaçar, a perseguir os mais pequenos e fracos. Obviamente, expliquei que essa atitude não podia ser sugestão da professora roubada, era coisa da iniciativa dos alunos mais velhos. Algo de incontrolado se passa que escapa ao conhecimento dos professores...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Bola de neve (2)



Aqui há uns dias, o Conselho Executivo da minha escola decidiu (admitamos que com a melhor das intenções) avisar todas as turmas, através de um comunicado circular, de que "não se responsabilizava" por telemóveis e outros aparelhos roubados ou perdidos. Quiseram, suponho, pôr fim às queixas que lhes chegavam. Pois o efeito foi o inverso. Nesse acto de desresponsabilização, declararam perante todos os alunos: façam o que quiserem, a partir de agora podem roubar à vontade, que nós não queremos saber. Ora, saber o que se passa numa escola é a primeira obrigação de uma direcção. Se não podem resolver os casos, devem informar os lesados de que apresentem, como qualquer outro cidadão, queixa na polícia. Foi o que aconselhei à colega cujo telemóvel foi roubado nesse mesmo dia, logo após a ordem de demisssão da autoridade escolar.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A tourada



Chamam-lhe bullying, que vem de bull, touro. Chamemos-lhe tourada. É o que se passa na escola durante os intervalos. Miúdos e miúdas permanentemente ao pontapé, à porrada, ao insulto. Um professor aproxima-se, separa-os, tenta mediar a situação e dizem "é só brincadeira". Pois, e quando um deles bater num cunhal de porta e partir a cabeça, acaba-se a brincadeira.

Hoje um miúdo levou com uma pedrada na cabeça. Veio a ambulância para o levar ao hospital. Vinha a descer e pergunto o que tinha acontecido. "Foi ali aquele miúdo". "Foste tu?", perguntei. "Fui", respondeu orgulhoso. "Chamou nomes à minha mãe, levou". "Pois, mas antes era ele que era castigado, e agora vais ser tu". "Mas fica marcado".

Na aula de Formação Cívica que acabara de dar ao meu 7º ano, falou-se de violência escolar. As regateiras da turma defendiam os seus pontos de vista: «Esta escola é uma espelunca. Se eu pudesse ia para outra". Protestam, mas são as que armam mais problemas disciplinares. Só sabem resolver as coisas assim.

domingo, 30 de novembro de 2008

Debate sobre indisciplina e CEFs



1. 31 processos disciplinares numa semana. Como um grupo de delinquentes destrói o ambiente de uma escola

«A agressão a soco e pontapé de um aluno de 16 anos à professora de 50 anos, na escola 2/3 de Jovim, em Gondomar, foi, no entender da vítima, o "culminar" de um clima de grande tensão que se vive naquela estabelecimento de ensino. A docente alerta para o facto de, numa só semana, terem sido registados 31 processos disciplinares (...)».

«É evidente que a escola EB 2,3 de Jovim está refém de um grupo de delinquentes. Um grupo de delinquentes que não deviam estar na escola, mas sim num colégio de portas fechadas que os sujeitasse a um processo de reeducação que integrasse:
i. Acordar todos os dias às 7:00 com marcha na parada durante 30 minutos (...)».

Fonte da notícia: CM de 30/11/08

2. Um debate sobre os CEFs. Um tumor que corrói o ambiente das escolas ou um instrumento necessário para combater os males da sociedade?

«Querer resolver, dentro da escola, um problema que o estado não resolve, e devia, está a prejudicar aqueles que fazem da profissão docente aquilo que ela deve ser: formar uma geração devidamente habilitada para melhorar, no futuro, as condições de vida de todos.» (Ramiro Marques)

3. Anabela Magalhães faz a defesa dos CEFs

«Com o saber de experiência feito permito-me discordar quando o Ramiro afirma que "Os CEF`s são um tumor que corrói os tecidos sãos das escolas onde estão implantados." Alguns alunos dos CEF`s, pela minha experiência muito poucos, são um verdadeiro tumor, mas são casos verdadeiramente excepcionais dentro destas turmas. Poderei lá eu voltar à sala de aula na terça-feira e olhar para o meu M, o meu F, o meu C, o meu B... como tumores?! Jamais enquanto professora tomei esta atitude e não desisto de os trazer para mim, para a Escola, para a Educação, até se me esgotar o último fôlego! E não acho que com esta atitude faça nada mais do que a minha obrigação como professora». Anabela Magalhães