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sábado, 30 de maio de 2009

Marcha


70 mil professores.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A luta continua



Não há duas sem três: 10 razões para ir a manifestação de 30 de Maio, in http://movimentoescolapublica.blogspot.com/

terça-feira, 26 de maio de 2009

Paralisação



Eu paralisei. Os dois primeiros tempos da manhã. De acordo com o pré-aviso de greve. Mas, na minha escola, o pequeno folheto afixado mal se via a um canto do placard sindical. Reunião não houve. Uma colega com quem falei não sabia da "greve". Outra atalhou: «Os sindicatos dizem que há pouca mobilização». (Em jeito de desculpa para não fazer greve?) É que aqui os resistentes são poucos. Só 4-quatro-4 não entregámos os famigerados OI (objectivos individuais). Por aqui a luta está paralítica.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Inferno futuro


Agora que concorri para outras escolas onde só haja ensino secundário, numa fuga declarada da indisciplina do ensino obrigatório, o governo anunciou o ensino obrigatório de 12 anos... Não está em causa o acesso ao ensino, que é um direito de qualquer cidadão. O problema é que torná-lo obrigatório para quem não o deseja, não o suporta nem é capaz de o fazer, é aumentar "o inferno que estamos a viver" na escola. 

Realmente, não há nada como o trabalho para ensinar a responsabilidade. A escola - hoje - não ensina nada disso. A medida poderá disfarçar o desemprego, talvez, mas por 3 anos só. Depois o efeito será explosivo. Jovens irresponsáveis, analfabetos, mimados em tiranetes, maiores de idade mas infantilizados, revoltar-se-ão e começarão a partir tudo, como já se viu nos subúrbios de Paris, nas ruas da Grécia e agora nas universidades francesas.

O cinismo máximo vem, mais uma vez, da Ministra, que considera que os professores que existem chegam perfeitamente para os mais 30 mil alunos que o sistema deve acomodar. E diz ela que "confia nos professores". Agora é tarde, minha senhora, para o dizer. Mas é prudente, porque quando a coisa rebentar já se saberá que a culpa é desses mesmos. É de chorar. 

Talvez os tais "peritos" de ensino público, que os governantes vão consultar depois de ter decidido a medida eleitoral, lhes expliquem como encher mais chouriços com a mesma máquina. É revoltante a arrogância destes pedagogos de secretaria que não querem ouvir as evidências do saber de experiência feito. 

P.S. Na Europa, há só cinco países com escolaridades obrigatória até aos 18 anos (dados do ME, divulgados pelo blogue MUP).

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A insolência (2)



Ninguém queria ou podia acreditar. O tema de hoje na sala de professores foi o extraordinário secretário Valter, que veio anunciar o regresso dos professores reformados às escolas; se não fosse verdade seria uma anedota, basta ver os comentários:

«O pessoal do ME tomou alguma coisa a mais. Ou a menos. Quando os professores estao dispostos a serem penalizados na reforma para se reformarem mais cedo querem que estes venham depois fazer voluntariado».

«O Sr. Valter Lemos e a sua equipa devem ter alucinações! Algum professor reformado quererá ir trabalhar com crianças sem educação e estar exposto a ser agredido? »

«Com todo o devido respeito pelos professores reformados: a insanidade total tomou conta deste país! vão-se buscar professores reformados quando centenas de professores no activo têm dificuldade em manter a ordem nas escolas e estão mortos - não porque querem deixar de trabalhar - mas porque não aguentam mais o clima das escolas».

«Aqui está uma boa notícia para os parasitas do PS. Aceitam-se deputados voluntários do PS PARA ESCOLAS EM RISCO !!!!»

«Já esqueceram? «Admito que perdi os professores, mas ganhei a opimião pública», disse a ministra. «Vocês [deputados do PS] estão a dar ouvidos a esses professorzecos», secretário Lemos. «Caso haja grande número de professores a abandonarem o ensino, sempre se podetiam recrutar novos no Brasil», secretário Pedreira, que também disse: «Quando se dá uma bolacha a um rato, ele a seguir quer um copo de leite». E a educadora Moreira, chefe da DREL: «[Os professores são] arruaceiros, covardes, são como o esparguete [depois de esticados partem], só são valentes quando estão em grupo». QUEM NÃO SE SENTE, NÃO É FILHO DE BOA GENTE ».

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Greve (2)


Contra a farsa.
* Foto: propaganda da DGRHE

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

As quotas e as castas



Os professores andam malucos com esta história da avaliação, doidos com os objectivos que têm de preencher e entregar para a semana e com os "critérios de superação". Como na minha escola não houve qualquer mobilização colectiva, andam todos a dizer mal, mas ainda não encontrei nenhum que afirmasse não entregar os objectivos individuais (OI). É isso o que vou fazer e digo-o a todos com quem falo, pretendendo dar o exemplo. Mas a maior parte receia as represálias, pois os que aceitam o simplex2 serão avaliados pelo PCE.

Alguns estão dispostos a pedir avaliação pedagógica, o que implica aulas assistidas, portfolio e um avaliador da mesma área disciplinar. Mas aqui começam a surgir as armadilhas. De que serve concorrer para o Muito Bom, se as "notas" serão dadas por quotas? Pode até ter-se um desempenho MB, mas se não houver quota, fica-se apenas com Bom. E quem serão os escolhidos? Os que andam a amanteigar os superiores, comenta-se. Mas que quotas há, ninguém nos disse.

Os coordenadores de departamento (entre si coordenados) recusam-se a dar exemplos de como preencher os objectivos e dão informações mitigadas. Agora temos a casta dos titulares e coordenadores, que, sujeitos a uma avaliação administrativa feita pelo PCE, assumem o papel (ingrato, percebe-se) de transmitir a voz do dono e não dar opiniões. Estão distantes dos outros, não podem, dizem, tomar posição. Foram instrumentalizados já por este regime hierárquico que os sujeita à obediência. Questões de pormenor remetem para o PCE. (Mas estará o PCE disponível para tirar dúvidas pontuais a 120 professores?)

O PCE, esse, já não é dos nossos, é mero emissário das políticas do ME e contorcionista entre regulamentos e despachos. O "povo" já murmura entre dentes contra a hipocrisia dos "administrativos". O PCE, efectivamente eleito pelos colegas, já não os representa hoje. A democracia acabou.

Valentes e coerentes são os 139 PCE e as centenas de escolas que, em moção colectiva, suspenderam a entregas dos OI.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

De sol a sol



Hoje foi a "jornada de reflexão e luta", marcada pelos sindicatos, dia em que se fizeram, ou fariam, reuniões de professores sobre a avaliação docente, com faltas justificadas ao abrigo da lei sindical. Fariam, na minha escola. Pois nem sequer o painel sindical tinha afixado o anúncio da jornada e da greve do próximo dia 19. Não havia informação nenhuma. Cheguei muito cedo à escola e, armada em delegada sindical, dediquei-me a afixar nas vitrines dos armários um rol de informações que retirei da internet, ao mesmo tempo que marquei uma reunião para a hora de almoço. A quem chegava e perguntava pela reunião, eu respondia que a reunião era aquela conversa informal e a discussão do assunto sobre o qual não me considero sequer suficientemente esclarecida.

Em todo o caso, já defini uma posição que defendi perante os colegas com quem travei diálogo: a recusa em entregar os objectivos individuais, segundo estratégia recomendada pelos sindicatos - e sem possibidade de sanção, ao contrário do que ameaçou o secretário de estado Pedreira. Esta recusa assumo-a enquanto tomada de posição profissional e política de rejeição deste modelo de avaliação. Não creio que tenha convencido nenhum colega. O nível de cobardia nesta escola chega a ser chocante.

Note-se que a entrega dos objectivos individuais não é obrigatória nem está consignada na lei como etapa do processo de avaliação. O que é obrigatório é a auto-avaliação do professor no final do ano lectivo. Só aí se inicia o processo de avaliação.

Eis os documentos que afixei hoje nas paredes:
Documento de Apoio à discussão
Guião para a discussão
Tomada de Posição de Escola
PROmova - Comunicado
Opção: Não Entregar os Objectivos Individuais
As consequências da não entrega dos objectivos individuais
Perguntas e respostas sobre a avaliação de desempenho: a perspectiva do website do ME
Da Irrelevância Dos Objectivos Individuais Para O Processo De Avaliação À Luz Do ECD
Os Objectivos Individuais No Decreto Regulamentar 2/2008
Os Objectivos Individuais No DR 1/2009-A
A Avaliação Pelo Expresso

A meio do dia tive a prenda de ser nomeada instrutora de um processo disciplinar. Saí da escola ao pôr do sol.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Imobilização



Depois dos ataques soezes do ministério aos professores, depois da hierarquização artificial da carreira docente que põe uns a obedecer aos outros em pirâmide de coacção directa provinda do ministério, depois da palhaçada de uma avaliação tornada mero cumprimento de procedimentos burocráticos, depois do suborno aos presidentes dos conselhos executivos, depois do golpe fatal na gestão democrática que antecipa a entrada em cena dos directores, depois da chantagem do Secretário de Estado para desmobilizar a greve dos professores prevista para dia 19, das ameaças várias, da perfídia reiterada por Sócrates de que os professores nunca antes foram avaliados, depois disto e tanto mais, que nos resta fazer?

Apesar da união que se viu na manifestação de Novembro e na greve de Dezembro, sinto que o ministério conseguiu confundir e dividir os professores. Pôs a avaliação a saldos: aproveitem este ano, que a avaliação está fácil, para o ano já contam os resultados dos vossos alunos... Os professores começam a pensar individualmente: se se recusam a ser avaliados, os colegas ao lado passam-lhes à frente, ocupam os poucos lugares que haja ou venha a haver, é uma carreira queimada.

Na minha escola, não vejo qualquer mobilização colectiva, e os que se manifestam estão todos mais ou menos dispostos a sujeitarem-se à avaliação, por muito estúpida e injusta que seja. Quem estará disposto a fazer perigar o seu ganha-pão e o futuro-futuro?

domingo, 28 de dezembro de 2008

O medo de existir + a não-inscrição



Após o episódio da pistola na Escola do Cerco, parece que finalmente se começou a falar do principal problema da educação, que tem andado a ser escamoteado:

“E é preciso ter a noção que muito casos são abafados pelas escolas, que tentam apresentar números de sucesso e preferem não atacar os problemas de frente”, conta uma outra fonte policial contactada pelo DN. “Muitas das situações são relatadas às autoridades apenas por interposta pessoa, ou então quando surgem na internet ou na comunicação social, o que torna muito difícil o nosso trabalho”, continua». (Diário de Notícias, 27-12-2008)

«Há que ser sincero e realista: não são nada esporádicos os casos em que as estatísticas da violência e indisciplina em meio escolar são abafadas logo na origem, porque existem órgãos de gestão que não gostam de entrar na lista negra dos organismos regionais e centrais do ME. Quantas vezes há participações disciplinares que acabam por não ser feitas, quantos processos acabam por ser arquivados, quantas ocorrências desocorrem apenas porque há avisos e conselhos do género, olha-lá-que-é-capaz-de-ser-pior-para-ti-e-para-todos… ou não-queres-que-se-saiba-isso-pois-não?» (Paulo Guinote)

«Neste momento há um factor a acrescentar. As escolas têm medo de perder a alunos se os casos forem tornados públicos. E nisto colaboram or orgãos de gestão e alguns professores.Não percebem que estão a atirar o lixo para debaixo do tapete. Uma qualquer oclusão cerebral cria-lhes a ilusão que nada se saberá. Obviamente que estão enganados. Tudo se sabe, e os pais retirarão os filhos dessas escolas, exactamente por nada ter sido feito. A atitude tomada com o objectivo de não perder alunos fará perder muitos mais». (comentário)

«O pessoal está a sair do armário!! A indisciplina está generalizada na escola! É verdade que os executivos tentam mistificar as coisas para não estragar a imagem! Na minha escola os CEFs são indescritiveis!» (comentário)

«Enquanto não nos levantarmos em força contra a guerra civil que se vive nas escolas… merecemos!» (comentário)

«Tal como demonstrado em vários estudos, se a falta de disciplina não for atacada cedo, tende a agravar-se e a generalizar-se por efeito de contágio.» (comentário)

«Os alunos sentem-se sempre inseguros ao denunciar este tipo de problemas. Está algo podre nas nossas escolas…E é já há algum tempo.» (comentário)

«Na minha escola vejo instalar-se, mês após mês, ano após ano, a lei da selva, a lei do mais forte. As cenas de pancadaria repetem-se, tornam-se rotina, com os responsáveis a gozar de toda a impunidade.» (comentário)

«Achei o filme “A Turma” muito soft, nós temos material para um filme daqueles com muito mais acção.» (comentário)

«O filme é soft. Quem fica impressionado com aquilo não faz ideia de muito do que passa por aí.» (Paulo Guinote)

«Dito de outra forma, maus mesmo são os telemóveis que "filmam". Se os proibirem nas aulas, acabam magicamente os "problemas". O que não se vê, não existe.» (Portugal dos pequeninos)

«O que parece preocupar as autoridades escolares não são os episódios desta natureza mas sim a sua divulgação. Se não forem divulgados, não existem. A escola pública está num estádio de negação da realiadade. A avaliação dos professores é a fingir; a avaliação dos alunos caminha para tal; a indisciplina e a violência sobre professores, funcionários e alunos só existe quando é filmada.» (Ramiro Marques)

«Todos sabemos que a maior parte das ocorrências não são relatadas. Os professores ouvem todo o tipo de insultos e de ameaças dentro das salas de aulas e raras vezes participam das ocorrências. Porquê? Toda a gente sabe que um professor que participe de uma ocorrência dessas é um docente marcado. Com a ameaça da avaliação burocrática de desempenho, isso pode significar um irregular. Certamente, o impedirá de ter acesso a um Muito Bom.» (Ramiro Marques)

E José Gil sobre a não-inscrição: « -A não-inscrição neste caso é o Governo ignorar isso tudo? - Totalmente. É um exemplo típico de não-inscrição. Totalmente. Não só não-inscrição. Há pior do que isso.» (Correio da Manhã, 28-12-2008)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Avaliação parada



O modelo de avaliação dos professores proposto pela plataforma sindical, que alguns jornais e comentadores ligeiros chamaram "auto-avaliação", é muito mais do que isso: começa, como não podia deixar de começar, pela auto-avaliação (que é um relatório da actividade desenvolvida por cada professor) e tem duas instâncias de avaliação superior. É um modelo perfeitamente equilibrado e justo.

Mas, dê por onde der, a avaliação está parada e pode ficar parada:
Como estoirar com a avaliação burocrática sem cometer ilegalidades?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

"Capitão titular"


Ler a história no Anterozóide.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Opinião pública


Sondagem online da RTP em http://ww1.rtp.pt/noticias/, às 14h30.

Greve

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

De Maquiavel a Kafka (2)



Antes da nova lei 3/2008, os alunos com Necessidades Educativas Especiais tinham direito a apoio dos serviços de psicologia e os que tinham dificuldades de aprendizagem tinham apoios educativos ou tutorias dados por professores com horas a isso destinadas.

Agora, as condições para obtenção de apoios de psicologia estão muito mais limitadas; e os apoios normais devem ser dados pelo próprio professor do aluno, e "de preferência dentro da sala de aula". Ora, se já é difícil fazer pedagogia diferenciada (nos tempos actuais mais do que nunca), pode bem perceber-se a impossibilidade que é dar apoio individual dentro das aulas colectivas.

E sendo o próprio professor o único incumbido de remediar os males, lacunas, atrasos e dificuldades de todo o tipo (que são muitas) dos seus alunos (que são muitos), nenhum professor deseja sobrecarregar-se de horas extraordinárias... para se tornar vítima do seu próprio zelo.

No entanto, a lei actual determina que os alunos com dificuldades detectadas sejam sujeitos a Planos individuais de Acompanhamento ou de Recuperação. Mas, afinal eles são todos tão fracos que seria impraticável apoiá-los a todos. Então o que podem os professores fazer?

Se realmente eles têm dificuldade, faz-se como a lei obriga: apoia-se mesmo dentro da aula. Portanto, baixa-se o nível. E se os alunos foram apoiados, então, devem passar, porque evoluíram o mais que podiam. Se o professor não declarou que um aluno precisava de apoio, então não pode retê-lo (chumbá-lo). Assim no fim do ano passam todos.

Os que são bons alunos, os coitados, também deveriam ter apoios educativos para compensar o baixo nível de exigência e desenvolvimento cognitivo que é pedido à maioria. A falácia da pedagogia diferenciada e a hipocrisia dos apoios educativos serve, afinal, apenas para promover a passagem automática. E tudo isto resulta na nulidade do valor do ensino.

Mas, como já várias vozes vêm dizendo, pretende-se muito mais do que boas estatísticas. Pretende-se minar o ensino público, para abrir ao privado as auto-estradas da educação.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

De Maquiavel a Kafka (1)



Hoje, graças à benfazeja greve da função pública, que mobilizou todos os funcionários auxiliares e administrativos e impediu que houvesse aulas, pude estar 9 horas seguidas na escola a adiantar o trabalho atrasado. Eu e uma quantidade de professores, mais precisamente os directores de turma, cuja carga de tarefas excede largamente as duas horas semanais que estão reservadas para esta função. «Precisávamos pelo menos de 10 horas por semana», diz-me uma colega.

Nesta fase do ano escolar - pelo mero efeito de acumulação das faltas de dois meses, mas também pelo absentismo crescente dos alunos e pelo agravamento da indisciplina - a quantidade de faltas que cada DT tem que recolher do livro de ponto e registar no sistema informático é de dezenas por dia. Em consequência, os alunos atingem os limites legais de faltas e, nas últimas semanas, os DT não páram de mandar cartas ou telefonar aos pais e EE -"pelo meio mais expedito", diz a lei 3/2008 - para os fazer vir à escola tomar conhecimento da situação do seu educando. Quando eles não respondem ou não vêm, o DT deve sinalizar a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, o que acaba por ser o argumento final para os fazer vir à escola e prometerem que vão falar com os filhos e que eles não faltam mais, etc., etc.

Pobres pais. É que os filhos são indomáveis e continuam a portar-se mal: ou faltam ou levam faltas disciplinares. Chegámos então à semana em que começa a cair o prazo para os primeiros alunos que serão obrigados a fazer a Prova de Recuperação. Nos livros de ponto inseriu-se mais um anexo, onde o DT assinala a data em que o aluno excedeu o limite de faltas injustificas (3 vezes os tempos lectivos de cada disciplina) e os professores de cada disciplina têm 10 dias para marcar a data prova de recuperação desse aluno, após o que o aluno tem 10 dias para estudar a matéria a que não assistiu. Isto começa a acontecer, neste momento, nas disciplinas com menor carga horária, como História ou Educação Visual.

O pior é que, como os miúdos não vêm às aulas, não é possível avisar os EE simplesmente através da caderneta. Então o professor comunica a situação ao DT e este envia um aviso - por carta registada - ao EE. Mas isto não é um ou dois casos por turma. É um ou dois casos por dia, sucessivamente. O DT não pára de fazer papelada, registos, envios, telefonemas, contactos, etc. Estão agora a perceber por que se queixam os professores de burocracia? Era precisa uma pessoa a tempo inteiro para dar conta, digamos, de 3 turmas problemáticas.

Esta foi a parte kafkiana. Passemos agora ao maquiavelismo.

A história continua assim: o aluno foi avisado e a prova marcada. Se ele comparece e é aprovado, todas as anteriores faltas são consideradas justificadas. O contador volta a zeros. E ele aprende que pode continuar a faltar e que lhe basta fazer uma prova de vez em quando. O DT continuará a assinalar as faltas e a comunicá-las ao EE. Quando atingir de novo o limite de faltas, voltamos ao princípio da história: novas provas de recuperação. E os professores continuam a marcar, fazer, dar e avaliar provas destas aos piores alunos.

O sistema funciona na perfeição. Impede-se assim que o aluno - mesmo penalizado - saia do sistema. Todas as suas tentativas de abandono escolar sairão fracassadas. A prova de recuperação não passa afinal de uma impostura burocrática para impedir que os alunos chumbem.

Mas se o aluno reprova na prova, o Conselho de Turma deve reunir-se e decidir o que fazer com aquele caso. O CT decide então que o aluno tenha um Plano de Acompanhamento Especial e repita a prova ou que seja retido no final do ano (ou excluído no caso se já não se encontrar fora da idade da escolaridade obrigatória). Digamos que o professor de cada disciplina pondera a situação e considera que mais vale passar o aluno do que obrigar uma dúzia de colegas a reunir-se fora das horas de trabalho para decidir do promissor futuro destes jovens.

Uma professora disse-me ontem: «Aviso-te que só faço esta primeira prova. E vou deixar de marcar faltas de atraso». Assim, os alunos começarão a chegar cada vez mais atrasados. Outros professores evitarão as faltas disciplinares. Pois a única hipótese que têm os professores - para escapar ao vício destes procedimentos - é evitar que os alunos tenham demasiadas faltas, ou protelar a inevitabilidade desse momento e depois dar-lhes uma prova "para passar". Na melhor das hipóteses, o aluno falta à prova e automaticamente ficará retido no final do ano.

Entretanto gasta-se tempo a tratar destes cancros, em vez de nos dedicarmos aos que querem aprender. A indisciplina na aula alastra com a impunidade das sanções (a começar pela marcação de falta) e ensinar torna-se muito difícil, senão impossível.

Ontem - na aula de Formação Cívica, onde se tratavam os "direitos dos alunos" - avisei a minha turma de 7º ano: «Digam aos vossos pais que vocês não estão a ter direito a uma educação de qualidade, e digam-lhes que se reúnam para discutirem por que é que a indisciplina de uns impede o direito à educação de outros». Acho que perceberam mais ou menos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Ministra mente



Quem ouviu hoje a entrevista da ministra (na RTP1) pôde bem avaliar a sua tenacidade, a sua demagogia de sucesso, a capacidade para dar a volta aos argumentos. Mas há mentiras subtis que só servem - mais uma vez e sempre - para fazer dos professores autênticos bodes expiatórios. Há coisas mínimas que qualquer cérebro regista definitivamente.

Qual foi essa mentira? Só quem é professor a sabe. A ministra disse que até agora qualquer pessoa entrava na carreira de professor sem passar por nenhuma avaliação. Disse-o, com estas ou outras palavras, na entrevista que pode ser revista aqui. Falso. É absolutamente falso.

Para se ser professor sempre foi preciso fazer estágio e ser avaliado, inclusive com aulas assistidas. Hoje todos os professores são profissionalizados. Talvez há 20 anos ainda não o fossem, pois havia carência deles. Hoje muitos profissionalizados estão desempregados. Todos entraram na carreira depois de avaliados em funções pedagógicas.

Apesar de todas as outras "inverdades" que a ministra proferiu, nunca ouvi mentira mais demagógica e injusta. E até a deputada do Bloco de Esquerda, com a intenção de rebater os clichés, os reforçou - quando disse que é errado pensar que os professores não fazem nada. Mas não é errado, é falso. E é improdutivo repeti-lo, porque o que fica na ideia das pessoas é apenas uma atenuante da ideia central que permanece: a de que os professores não fazem nada...

É por estas e por outras que os alunos já não acreditam em nós e nos tratam abaixo de cão. Aguentamos com as culpas de toda a sociedade e somos os bombos da festa dos filhos de todas as "famílias" deste país. Triste vida.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Os ovos


Afinal - com a benesse dos ovos partidos - talvez a ministra tenha começado a perceber o que a espera da parte dos seus queridos alunos - e o que se passa no ambiente tumultuoso das escolas. A sublevação dos ovos é só um epifenómeno da indisciplina que acontece em muitas escolas. Sintoma da doença de falta de autoridade que afecta a geração mais nova. Na minha escola, ainda ontem, mais uma professora - em aula de substituição - foi mandada "para o caralho" por um aluno do 6º ano. A ira de uns e de outros é perfeitamente equivalente e descontrolada.

domingo, 16 de novembro de 2008

Basta!

*

A manifestação de 10000 professores ontem cumpriu os objectivos de "demonstrar à ministra que os professores estão dispostos a lutar até ao fim" e aos encarregados de educação que "a razão está do lado dos professores". in http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1350125
*Foto do blogue Fliscorno.