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sábado, 6 de junho de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
A correria
Trabalhar numa escola é andar sempre a correr, a passar recados, a pegar em papeis e dossiers e a usar a memória RAM (de curta duração) para resolver todo o tipo de problemas, porque nem tempo há para anotar tarefas. As acções inadiáveis fazem adiar as outras, que sobram sempre para o dia seguinte.
A vida moderna, cheia de meios informáticos, documentos, pens, formulários, minutas, gráficos, folhas de cálculo, ponderações e parâmetros, emails, sms, toques e chamadas, tornou-se muito mais improvisada e imprevisível do que antes era. A informática é a grande agente da confusão organizativa em que vivemos e do caos mental em que submergimos. A papelada cresce exponencialmente, a burocracia empecilha a acção e mina o dia-a-dia. Gastam-se resmas de cópias para tudo e mais alguma coisa, e fazem-se milhares de fichas que os alunos amarrotam e desprezam.
No meio disto tudo, preparar aulas, ver trabalhos e testes, assistir os alunos - tudo é feito em cima do joelho. E o que é feito em cima do joelho é, regra geral, mal feito, imperfeito ou com defeito. Vivemos portanto no reino da incompetência geral.
(Também assim é no ME, de cujo joelho sai a grande incompetência central.)
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
A pergunta
Dado o elevado número de faltas e ocorrências anormais (os atrasos, as faltas de material, as participações disciplinares, etc.), desisti de andar a telefonar aos pais. E criei mais um formulário (a inventiva burocrática floresce a cada escolho) para poder comunicar-lhes (em anotação manuscrita) as faltas e ocorrências da semana anterior. As cartas seguem por correio azul na segunda-feira seguinte. E resulta: os pais não podem ignorar.
Alguns acorrem logo a conferir as faltas e a confrontar os filhos. E ouvem o relato das insolências, da indisciplina, da falta de aproveitamento, o sermão todo. Apesar de incrédulos, põem-se do lado dos professores, pois. Há quem insista: "mas a minha filha nunca foi assim; a minha filha não é assim comigo". E eu vou dizendo que nesta idade eles deixam de ser crianças e que os amigos e as influências da escola marcam muito; que o clima na escola é caótico, pois.
E quase a despedir-se uma mãe faz só mais uma pergunta: "A minha filha anda intrigada com a Sôtora tirar fotografias..." Sorrio e digo que é por gosto e que sempre tirei fotografias; mas que sei que as pessoas hoje em dia se sentem incomodadas e por isso evito fotografá-las de frente.
Depois fico a pensar como é estranho tudo isto. Tanto para os adultos como para as crianças - e talvez porque todos têm câmara no telemóvel - está instalada a desconfiança. O BigBrother foi quase há 10 anos e introduziu na nossa sociedade uma deformação ética. O tempo em que se tiravam fotografias sem maldade já passou. E no entanto, as pessoas expõem-se hoje sem pudor nos Hi5 e nos Facebooks...
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Os escravos
"Escravos" é a vulgata usada para auto-nomeação dos DT, acrónimo de Director de Turma. Ao DT cabe um sem número de tarefas e responsabilidades que lhe tornam a vida no mínimo difícil e no mais impossível. No nosso horário temos dois tempos por semana (90 minutos) destinados aos trabalhos de organização da turma e mais 45 minutos para atender os pais. Já era assim no tempo da outra senhora (ministra); mas esta resolveu dar-nos que fazer e transferiu, das auxiliares e da secretaria para as costas dos DT, o trabalho de registar as faltas e mandar cartas aos papás.
Como nesta escola as turmas são algo problemáticas, caem dezenas de faltas por semana para levantar e introduzir do computador, mais numerosas cartas aos encarregados de educação, mais os telefonemas aos ditos para controlar o mau comportamento dos meninos, que já deixei de fazer, pois perdem-se horas nisso e só há um telefone; além de reuniões e actas e planos de recuperação e sinalizações e participações disciplinares a encaminhar ou a resolver e sobretudo - sobretudo - uma actividade intensa de resolver problemas do dia-a-dia com os miúdos, ora de comportamento, ora de rendimento escolar, ora apenas problemas individuais, que todos têm, e ainda passar recados e recolher fichas e conversar com os colegas sobre atitudes a tomar. Andamos sempre a correr de fogo em fogo.
Além de andarmos atrás das crianças, temos ainda que andar atrás dos pais que não vêm à escola, nem depois de várias vezes chamados; e só vêm quando se ameaça com a comissão de protecção de crianças e jovens. E o tempo nunca chega, mesmo gastando nestas actividades ditas de "direcção" 10 ou 15 horas por semana.
domingo, 30 de novembro de 2008
Debate sobre indisciplina e CEFs

1. 31 processos disciplinares numa semana. Como um grupo de delinquentes destrói o ambiente de uma escola
«A agressão a soco e pontapé de um aluno de 16 anos à professora de 50 anos, na escola 2/3 de Jovim, em Gondomar, foi, no entender da vítima, o "culminar" de um clima de grande tensão que se vive naquela estabelecimento de ensino. A docente alerta para o facto de, numa só semana, terem sido registados 31 processos disciplinares (...)».
«É evidente que a escola EB 2,3 de Jovim está refém de um grupo de delinquentes. Um grupo de delinquentes que não deviam estar na escola, mas sim num colégio de portas fechadas que os sujeitasse a um processo de reeducação que integrasse:
i. Acordar todos os dias às 7:00 com marcha na parada durante 30 minutos (...)».
Fonte da notícia: CM de 30/11/08
2. Um debate sobre os CEFs. Um tumor que corrói o ambiente das escolas ou um instrumento necessário para combater os males da sociedade?
«Querer resolver, dentro da escola, um problema que o estado não resolve, e devia, está a prejudicar aqueles que fazem da profissão docente aquilo que ela deve ser: formar uma geração devidamente habilitada para melhorar, no futuro, as condições de vida de todos.» (Ramiro Marques)
3. Anabela Magalhães faz a defesa dos CEFs
«Com o saber de experiência feito permito-me discordar quando o Ramiro afirma que "Os CEF`s são um tumor que corrói os tecidos sãos das escolas onde estão implantados." Alguns alunos dos CEF`s, pela minha experiência muito poucos, são um verdadeiro tumor, mas são casos verdadeiramente excepcionais dentro destas turmas. Poderei lá eu voltar à sala de aula na terça-feira e olhar para o meu M, o meu F, o meu C, o meu B... como tumores?! Jamais enquanto professora tomei esta atitude e não desisto de os trazer para mim, para a Escola, para a Educação, até se me esgotar o último fôlego! E não acho que com esta atitude faça nada mais do que a minha obrigação como professora». Anabela Magalhães
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desordem,
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terça-feira, 28 de outubro de 2008
A sanha da organização
Dantes a burocracia de uma escola concentrava-se na secretaria, para além naturalmente dos cadernos diários dos alunos e dos apontamentos e exercícios elaborados pelos professores. Depois veio uma ministra que decidiu organizar a escola segundo um conjunto complexo de regras, obrigações, relatórios, estatísticas, etc. A mania da organização apoderou-se então do espírito de alguns professores sistemáticos que começaram a traduzir, em cada escola, a carga de instruções em tabelas, esquemas, normas e papeladas infindáveis, que - por força da sua existência - são impingidos aos professores intuitivos e se tornam norma interna.
Assim, na minha escola, aquilo que se designa por avaliação qualitativa foi literalmente transformado em quantidades. Por exemplo: na avaliação intercalar diagnóstica do 1º período, há 4 parâmetros de avaliação: a) conhecimentos e competências; b) participação na aula; c) atitudes e valores; e d) TPC. A cada um destes aspectos, cada professor atribui NS (não satisfaz), S (satisfaz) ou SB (satisfaz bem) para cada aluno. Depois, segundo uma tabela abstrusa com 81 arranjos possíveis, faz-se a média destas qualidades para atribuir uma qualidade global. Isto é a perversão total do que seja uma avaliação qualitativa. Mas dá jeito para fazer estatísticas.
O excesso de organização, trâmites e regras arbitrárias redunda em desorganização completa. Os professores são obrigados a navegar num mar de regras que conhecem mal e que perderam qualquer relação ao real: à escola e aos alunos.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Responsabilidades
A escola actual não cuida apenas dos alunos, mas toma conta das famílias. E bem. Se o aluno não traz a convocatória para a reunião de pais assinada, o director de turma (DT) telefona a avisá-lo. Se o encarregado de educação (EE) não está contactável, porque o aluno declarou um telemóvel falso ou desligado, o DT manda para casa uma carta registada (e uma não registada, para ver qual chega primeiro). Se o EE não vem à escola para tomar conhecimento das faltas do educando, o DT contacta a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. É responsabilidade da escola responsabilizar os pais.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Planta da sala
Recepção aos alunos do 7º ano pela DT (Directora de Turma). Entram na sala por ordem numérica de pauta (que corresponde à ordem alfabética) e sentam-se no lugar designado pela professora. A tradição costuma arrumar os alunos da direita para a esquerda horizontalmente, de modo que os que têm nomes com letras iniciais mais avançadas ficam sempre mais atrás e se tornam aos poucos mais desatentos e piores alunos. A arrumação agora foi outra: em filas verticais e em ziguezague. Além de acabar com a injustiça dos nomes por discriminação alfabética, facilita a recolha e a distribuição dos trabalhos por ordem. Ao professor basta-lhe fazer uma ronda rápida da sala.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Isto começa

Uma pessoa adapta-se em pouco tempo. Ao terceiro dia comecei a compreender que nenhuma reunião começa a horas, mas geralmente acabam sem se ter tratado tudo o que haveria a tratar. Já me tinham avisado: a escola está diferente. Sim, de tudo é preciso fazer acta, planificação e relatório. Os professores passam o tempo a perguntar uns aos outros as regras e os procedimentos que poucos sabem exactamente quais são. É a burocracia escrita de transmissão oral. A sensação é que tudo está mais desorganizado, porque há organização demais.
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