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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Tourada (2)


Estava a "dar" uma aula de substituição no Centro de Recursos. Um miúdo de 11 anos atira-se com violência a outro, bem mais alto. Suspendo-o pelo braço e levo-o para a sala anexa onde se recebem os alunos "agitados". O miúdo chora de raiva, dizendo que o outro é que começou e que ele próprio não tem culpa. Foge de lá e volta, mas uma professora persegue-o e leva-o de novo.

Daí a um bocado mandam-no de volta e, já mais calmo, amocha numa cadeira a lacrimejar pela face abaixo. Vou lá falar com ele para saber o que se passa. Continua humilhado e profere frases de vingança. Isso não pode ser, digo, se começam a bater-se isso não acaba e magoam-se os dois. «O meu pai vem cá e bate nele». Isso não pode ser, senão vem depois o pai dele e bate em ti, respondo. «E o meu pai bate no pai dele». Isso não pode ser, senão ainda acabam a matar-se uns aos outros, continuo eu. E ele pega na deixa: «O meu pai vai matá-lo». E depois vem o pai dele e mata-te a ti, acrescento. «Quero lá saber!» Então se não te importas de morrer, escusas de chorar, digo-lhe e afasto-me. As lágrimas secam.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Tempos livres


A escola actual não deixa qualquer tempo livre aos alunos. São 35 horas semanais no 7º ano, e mais ainda, por exemplo, nos cursos profissionais (secundários). Nem sequer quando falta um professor podem ir livremente para o jardim, conversar, correr ou jogar. Ficam presos dentro da sala de aula com um professor substituto que pouco mais faz do que tomar conta deles - o que se torna um sacrifício para todos e agrava exponencialmente a indisciplina. 

Quando me calha uma substituição, vou com os alunos para o Centro de Recursos, onde podem conversar, ler, fazer trabalhos, jogar, etc. Aliás, o centro de recursos está quase sempre vazio, já que os alunos estão obrigatoriamente fechados nas salas de aula...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A substituição



Na minha bela turma de 7º ano, faltou uma professora e tiveram aula de substituição. Só sei que os anjinhos da turma armaram uma zaragata de todo o tamanho. Dois dos miúdos estavam perto da carteira da professora a ver não sei o quê, um terceiro, o chamado "chato", aproximou-se; então o anjinho nº1 disse ao anjinho nº2 que o anjinho nº3 (o chato) lhe tinha feito os cornos atrás da cabeça (o que era pura mentira); o nº 2, que é muito infantil ainda, atirou-se e ele; lá os separaram; mas o ofendido não desistiu e - como uma aula de substituição tende a descambar em território sem lei - voltou à carga; atiram-se mais uns 3 ou 4 a separá-los, caem carteiras e o anjinho nº2 parte os óculos. "A professora não fez nada", queixa-se uma menina.

A seguir tiveram Assembleia de Turma comigo e eu fiz mais uma audiência formal e ouvi todas as testemunhas e, por final, os anjinhos. A tónica dos discursos era apurar quem tinha a culpa: o nº1, o nº2 ou o nº3. Expliquei-lhes que todos tinham uma parte de culpa. E tentei mais uma vez mostrar que se andam a bater-se alguém há-de ficar magoado. E agora quem vai pagar os óculos, perguntei-lhes.

Lembrei-lhes que outro miúdo da turma (o diabinho nº1) estava em casa de braço partido por causa de um pontapé no andebol (de agressão, pois). «Querem ir mesmo parar ao hospital? Olhem que não tem muita graça».

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Opinião pública (2)



Uma notícia saída no Público serviu-me de base para um teste sobre a matéria de Texto Jornalístico no 7ºano. No final, pedia um comentário acerca das "actividades de enriquecimento curricular" e das "aulas de substituição":

«O que eu penso das aulas de substituição é que uma grande fantochada porque a maioria das vezes ficamos na sala a jogar ou a trabalhar. Em vez de virmos apanhar ar fresco ou correr para o jardim ou para o campo jogar futebol. Mas também há jogos muito bons de nível cultural e mental. E acho que também não aprendemos nada nas aulas de substituição. E que há muitos professores que não gostam de dar aulas de substituição.»

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A má educação



Esta semana pegou a moda de roubar telemóveis. Uma professora em substituição foi roubada pela minha turma, "turma simpática até", disse-me ela. Depois, foi à sala um professor do Conselho Executivo e reteve os alunos na sala até os revistar todos. O telemóvel não apareceu.

No dia seguinte, os alunos estavam muito zangados por os terem feito sair mais tarde. Discutiram o assunto em Assembleia de Turma. Ao fim do dia recebi uma mãe que vinha protestar e exigir que o professor em causa pedisse desculpa à filha por a ter acusado. Lá lhe disse que a suspeita era geral, não pessoal. Responde-me: «Se os professores querem ser respeitados, têm que se dar ao respeito». Fiquei sem resposta, não estava à espera. Mandei-a tratar do assunto com o CE.

Com pais destes, como podem os filhos sair bem-educados?

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A bola de neve



Quando começa a rolar ninguém a pára. Assim é com a indisciplina. Desde há três semanas pegou a moda de insultar as professoras. Mas, note-se, acontece sobretudo nas aulas de substituição, onde os alunos sabem que não são conhecidos - nenhum vínculo ou relação pessoal os liga àquele professor - e aproveitam para fazer as maiores tropelias que conseguem. E não se pode pará-los? Poderia, mas era preciso que os professores deixassem de se acobardar. «Isto já bateu no fundo», diz quem já ficou debaixo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Os suplentes



Ontem contaram-me o caso de um professor de filosofia da escola, que entretanto já se reformou. Recusou-se sempre a dar as aulas de substituição, fazia questão de não ceder. Percebe-se porquê: isso afectava a sua dignidade de professor. Para quem toda a vida preparou as aulas para ensinar com objectivos, fazer uma substituição de improviso e sem conhecer os alunos é exactamente a negação da sua profissão; o opróbrio da sua função pública. Por essa razão teve problemas e ficou mal visto no final de longa carreira.

Agora, passados apenas 3 anos, estamos a colher os frutos de se ter confundido o professor que ensina com o animador que entretem e, sobretudo, que impede os alunos de sair da sala de aula. Mas agora quem está preso na jaula são os professores. Ainda ontem, um professor "novato", isto é, recém-regressado à escola, estava irritadíssimo, porque mandou sair um aluno e ele se recusou. Os que lá estão há mais tempo já se habituaram e baixaram os braços; já desistiram de ensinar. Tal e qual.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A bizarria



Na origem da confusão sobre a função docente - e sobre isso os professores são unânimes - está a idiotice das «áreas curriculares não disciplinares» (6 horas semanais no 3º ciclo).

A Área de Projecto - destinada a trabalho de grupo sobre temas de interesse dos alunos - é contraproducente; pretendendo promover a autonomia, a cooperação e a responsabilização dos alunos, faz exactamente o contrário; não se pode andar a fazer pesquisa só pela pesquisa; o trabalho de grupo é útil, mas aplicada dentro das disciplinas com objectivos de aprendizagem definidos.

O Estudo Acompanhado, tornado tempo curricular obrigatória para todos os alunos, impede o cumprimento dos seus objectivos específicos que são, segundo o despacho nº 19308/2008 que regulamenta o dec.-lei 6/2001:

«5 - O tempo atribuído ao Estudo Acompanhado deve ser utilizado parcialmente pelas escolas para apoio aos projectos em curso, designadamente:
a) Desenvolvimento do Plano de Matemática;
b) Apoio aos alunos com Português Língua não materna;
c) Realização de actividades no âmbito dos planos de recuperação e de acompanhamento dos alunos;
d) Programas definidos a nível de escola.
7 – Tendo em conta a diversidade de experiências vividas nas escolas e atendendo à sua importância para a promoção da melhoria das aprendizagens, a área de estudo acompanhado pode integrar, entre outras, as seguintes modalidades:
a) Desenvolvimento de planos individuais de trabalho e estratégias de pedagogia diferenciada de modo a estimular alunos com diferentes capacidades;
b) Programas de tutoria para apoio a estratégias de estudo, orientação e aconselhamento do aluno;
c) Actividades de compensação e de recuperação;
d) Actividades de ensino específico da língua portuguesa para alunos oriundos de países estrangeiros.»

Obviamente, nada disto pode ser realizado numa aula com 24 ou mais alunos. Não é possível fazer a almejada "pedagogia diferenciada" no meio do caos. E depois não restam horas disponíveis para os planos de recuperação individuais.

A Formação Cívica é a única não-disciplina que define genericamente, para o 2º e 3º ciclos, alguns conteúdos. Mas não os distribui pelos 5 anos de escolaridade ou por níveis de progressão. Resultado: repetem-se os conteúdos, que são dados aleatoriamente, como quem baralha e volta a dar as mesmas cartas. Assim se descredibiliza a necessidade e pertinência dessas aprendizagens.

Para cúmulo de tudo isto, as aulas de substituição são a causa mais directa do desrespeito dos alunos pela autoridade científica dos professores.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Desobediência (1)



Apesar do novo clima de controlo social, avaliativo e normativo que actualmente gere o trabalho na escola - segundo a lei, só o professor é responsável pelo seu próprio trabalho. Mas, este ano, os professores estão entalados entre a espada e a parede. Terão que responder perante os avaliadores e disso depende a sua progressão na carreira. Disso e dos trezentos itens quantificáveis com que vão avaliá-los. Porém, sendo o trabalho do professor autónomo e responsável, ele deve assumir os seus actos e fazer exactamente o que considera adequado aos seus fins pedagógicos. Um professor deve sempre agir segundo a sua consciência e necessidades. Quem sabe o que é preciso fazer é quem lá está (não é a Maria de Lurdes).

Assim, numa hora de substituição que tive, decidi levar os alunos para o recreio, para poderem correr, gritar, jogar à bola, conversar, etc. - actividades de desenvolvimento juvenil que considero fundamentais.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A substituição



A minha ausência teve resultados muito piores do que eu podia esperar. Para os alunos não ficarem muito prejudicados com as malfadadas aulas de substituição, achei por bem enviar um teste que já estava marcado para outro professor o dar aos alunos. Assim, pensei, eles vão perceber que isto é a sério, que mesmo quando não estou lá lhes mandei o trabalho para fazerem. Nada disso. O teste foi dado por uma professora que não conseguiu evitar problemas disciplinares. Em primeiro lugar, estava um aluno "infiltrado" na turma que começou a fazer parvoíces e palhaçadas; a aula de teste (que eu pensava ser uma aula solene) tornou-se uma grande confusão. A maior parte dos alunos nem se deu ao trabalho de responder à maior parte das perguntas. Resultado: 5 positivas.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Remorsos



Estou de baixa, estou em baixo, e ainda por cima (ou por baixo?) tenho remorsos de deixar os meus meninos à toa, sujeitos a 10 horas semanais de substituições. Com esta dose forte de caos metodológico, lá se afundam os meus planos de emergência e os esforços progressivos de lhes criar hábitos de trabalho. Se eles pudessem andar à solta no recreio, ficaria mais consolada.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Zero em comportamento



Não sabem estar quietos no lugar; não pedem para se levantar; interrompem permanentemente; falam vários ao mesmo tempo; não sabem escrever, não corrigem os trabalhos; não trazem material para a aula; ou não o tiram da mochila; arrastam as carteiras ruidosamente; deixam a sala desarrumada e suja; não sabem (ou não querem) executar tarefas simples de preenchimento de uma mera ficha de organização; não sabem trabalhar autonomamente; nem colaborar. Mas não são todos assim, são só demasiados para deixar que os outros possam aprender.

Como é que isto chegou aqui? Não sei bem. Acho que foi quando se instituíram as aulas de substituição e se prenderam os miúdos nas salas de aula sem propósito nem objectivo. Fazer uma ficha tornou-se um frete ou um castigo; e qualquer ficha se tornou sinónimo de amendoim para macacos. O professor que não ensina desce de nível, perde a autoridade científica, torna-se mais um auxiliar de educação, perde o respeito dos alunos. Depois a coisa propaga-se, generaliza-se, cresce, não tem limites. É uma bola de neve. Ninguém a consegue parar.

Pela mesma altura vieram as "áreas curriculares não disciplinares" - Área de Projecto, Estudo Acompanhado, Formação Cívica e ainda Assembleia de Turma (6 horas semanais no 3º ciclo) - onde não há programa organizado, não há conteúdos, há apenas os "objectivos gerais" de "desenvolver competências" de "autonomia, colaboração, responsabilidade, pesquisa e comunicação". Tudo isto - por muito boas intenções que tivesse - se tornou um pântano. A escola afunda-se neste pântano. Os professores perderam as ilusões: «É o fim da escola», dizia-me uma colega - e dizem todos.

Alguém ouvirá os professores? Não. Mas alguém melhor que os professores sabe o que fazer na escola? Ninguém. A verdade é que assim não funciona. Aliás, funciona muito pior do que dantes.

Temos que voltar ao grau zero do comportamento. E só quando se restabelecer o respeito pelos professores e a calma na sala de aula, conseguiremos ensinar alguém.

Mas como? Se os professores - nesta fase agudíssima de hecatombe da escola - se vêem coagidos por uma "avaliação de desempenho" que pretende fiscalizar a eito e por atacado o trabalho de todos num só ano? Então os professores deixam de marcar faltas disciplinares, para não confessarem a sua impotência, para não mancharem o seu currículo, para não comprometerem a sua progressão na carreira. Então, os professores passam todos os alunos, porque, se os não passarem, terão que lhes dar - a esses - aulas de apoio suplementar - mais do mesmo. E assim evitam inúteis justificações escritas e avaliações extraordinárias acerca das razões por que não passaram tal e tal aluno. O tempo em que era simples chumbar um aluno, porque ele faltava ou não fazia nada, acabou. Os alunos sabem isso e aproveitam-se. Não há qualquer sanção. São impunes.

Os professores, de missionários que eram, passaram a demissionários. Suportam tudo porque já não aguentam nada.

Professores, está na altura de passar à desobediência civil. Havemos de descobrir como.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O fim da alegria



A chamada Ocupação Permanente dos Tempos Escolares - OPTE - são as substituições: falta um professor, chama-se outro para tomar conta da turma naquele período de tempo. Há uma "bolsa" permanente de professores disponíveis para tomar as rédeas de turmas que não conhecem, a quem não têm nada para dar a fazer, senão uns joguinhos, uns dedos de conversa, umas fichas de cidadania, qualquer coisa. Os alunos têm má vontade, os professores boa não têm, mas obedecem às ordens do ministério.

Haverá momento mais feliz na escola do que aquele em que falta um professor? Todos sabemos que não. Todos sabemos que os alunos gostam da escola sobretudo pela socialização e que, para um adolescente, o mais importante são os amigos. Dantes eram livres de ir para o jardim conversar, brincar, correr, enfim, gastar aquela energia imparável que é própria dessa idade. Tudo aquilo que faz parte da sua aprendizagem vital e crescimento saudável. Agora só podem conviver com os amigos nos escassos intervalos de 10 a 20 minutos e na hora de almoço. Todo o seu tempo está regulado. Não têm escapatórias, momentos de excepção, um pouco de aventura. Estão programados para terem um professor em permanência a dar-lhes fichas ou sermões. Em vez de voltarem à sala de aula com as energias gastas e vontade renovada de trabalhar, chegam à aula seguinte eléctricos, dispersos, fartos, desrespeitadores. Quem aguenta é o professor que se segue.

Os professores são esvaziados da sua função de ensinar com pertinência e dentro de um limite de tempo aceitável. Agora parecem estar ali para impedir os jovens de manifestar a sua vitalidade e alegria. Afinal, se falta um professor, qual é o problema de dar folga aos alunos? Não devia ser nenhum. A OPTE é anti-pedagógica, é preciso dizê-lo.