Mostrar mensagens com a etiqueta áreas curriculares não-disciplinares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta áreas curriculares não-disciplinares. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 22 de maio de 2009

As perguntas


Em Formação Cívica, alguns alunos foram (tentar) apresentar aos restantes aquilo que eles consideraram mais importante saber sobre a fisiologia do outro sexo (tal como proposto em Área de Projecto). Grande excitação e balbúrdia. Ainda bem que deixei este assunto para o fim do ano, pensei. Entretanto eu ia recolhendo num saco perguntas anónimas para serem respondidas na próxima semana por uma professora de ciências "convidada". Aqui vão elas:

A partir de que idade se tem o período?
Porque mudamos o nosso comportamento?
O que é SPM?
O tampão tira a virgindade?
Pode-se engravidar com um tampão?
A partir de que idade é que se pode fazer relações sexuais?
É verdade que os rapazes têm “sonhos molhados”?
Como é os espertozóides a olho nu?
Como se faz amor?
Quando é o momento certo para perder a virgindade?
Qual é o sentimento antes de fazermos amor?
Como é que se faz amor? Ficarei feliz se responder...
Que sentimento se deve ter quando se faz amor?
O que se faz depois de Amor?
Quando se tem mestruação deve-se fazer amor?
Tem de se usar pílula quando acaba-se de fazer amor?
Quem faz sexo com camisinha engravida? Ou nem por isso?
As raparigas têm que usar preservativo?
Como se põem os preservativos das mulheres? Funcionam da mesma forma?
Como é que o homem põe o pénis na vargina da mulher?
Dói a vagina de fazer sexo?
E se entrar no buraco errado o que acontece?
Por que é que as meninas têm mais a tendência de fazer sexo com os rapazes?
É difícil ter filhos?
Como se faz um filho?

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O coma


Voltou a balbúrdia à turma de 7º ano, que na semana passada parecia ter melhorado... Efeito de antecipação do final das aulas, talvez, efeito secundário da visita de estudo, ou efeito do tema da sexualidade que introduzi em Área de Projecto e Formação Cívica, não sei. 

Dada a agitação, não houve trabalho de grupo. Apenas distribuí as fotocópias individualmente. Na primeira (comparando gráfica e verbalmente o desenvolvimento fisiológico de rapazes e raparigas durante a puberdade), pedi que sublinhassem apenas o que ainda não sabiam. As segundas fotocópias (sobre o desenvolvimento dos órgãos reprodutores) distribuí-as diferentemente a rapazes e raparigas e pedi-lhes que sublinhassem aquilo que achavam importante que o outro sexo soubesse. Para a semana intervirão as professoras de ciências.

O episódio engraçado foi quando, entre as minhas admoestações acerca do comportamento "anormal" e "doente" da turma, uma miúda retorque: «A setora é que esteve em coma durante 5 anos!» Como?, pergunto. «Atão não esteve? Com um problema nos rins? É o que toda a gente diz.» Sorri absolutamente. Não, respondi, estive 5 anos fora da escola a fazer doutoramento. «E o que é isso?». Então escrevi no quadro a sequência dos graus académicos após o 12º ano. «Tanto tempo desperdiçado», vociferou outra miúda. Não, não, respondi, eu gosto de estudar, e reforcei, é o que eu mais gosto de fazer (a pensar nos 4 ou 5 bons alunos que me estavam a ouvir).

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Área de Projecto


A tarefa era criar uma narrativa visual, feita de fotografias recortadas e palavras. Tema livre. Uma história, expliquei, com princípio, meio e fim. Levei as revistas, as tesouras e as colas. Os meninos mimados logo começaram a queixar-se: não queremos, não gosto de fotografias, só gosto de desenhar... Parece que quanto mais se quer agradar ou estimular os miúdos, mais ranhosos e caprichosos se tornam. Para eles tudo é uma chatice e uma seca. Depois lá se interessaram, mas a aula foi um caos, uma barulhada infernal e zanguei-me com eles...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Estranho amor


A introduzir a temática da sexualidade, experimentei mostrar um documentário que fiz há uns anos sobre prevenção da SIDA nas escolas. O filme desenvolve-se em capítulos que correspondem às semanas sucessivas em que uma equipa de estudantes de medicina voluntários visita uma escola para pôr em prática a chamada "educação pelos pares". Mostrei apenas os três primeiros capítulos. Curiosamente, os alunos interessaram-se mais do que esperava. O que, no filme, perturba o comum espectador - que é o ruído juvenil excessivo - para estes jovens não é mais do que o seu banal quotidiano e não se mostraram incomodados. Creio mesmo que se sentiram espelhados no filme. Um deles comentou: "Aquela turma é muito parecida com a nossa". 

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A bizarria



Na origem da confusão sobre a função docente - e sobre isso os professores são unânimes - está a idiotice das «áreas curriculares não disciplinares» (6 horas semanais no 3º ciclo).

A Área de Projecto - destinada a trabalho de grupo sobre temas de interesse dos alunos - é contraproducente; pretendendo promover a autonomia, a cooperação e a responsabilização dos alunos, faz exactamente o contrário; não se pode andar a fazer pesquisa só pela pesquisa; o trabalho de grupo é útil, mas aplicada dentro das disciplinas com objectivos de aprendizagem definidos.

O Estudo Acompanhado, tornado tempo curricular obrigatória para todos os alunos, impede o cumprimento dos seus objectivos específicos que são, segundo o despacho nº 19308/2008 que regulamenta o dec.-lei 6/2001:

«5 - O tempo atribuído ao Estudo Acompanhado deve ser utilizado parcialmente pelas escolas para apoio aos projectos em curso, designadamente:
a) Desenvolvimento do Plano de Matemática;
b) Apoio aos alunos com Português Língua não materna;
c) Realização de actividades no âmbito dos planos de recuperação e de acompanhamento dos alunos;
d) Programas definidos a nível de escola.
7 – Tendo em conta a diversidade de experiências vividas nas escolas e atendendo à sua importância para a promoção da melhoria das aprendizagens, a área de estudo acompanhado pode integrar, entre outras, as seguintes modalidades:
a) Desenvolvimento de planos individuais de trabalho e estratégias de pedagogia diferenciada de modo a estimular alunos com diferentes capacidades;
b) Programas de tutoria para apoio a estratégias de estudo, orientação e aconselhamento do aluno;
c) Actividades de compensação e de recuperação;
d) Actividades de ensino específico da língua portuguesa para alunos oriundos de países estrangeiros.»

Obviamente, nada disto pode ser realizado numa aula com 24 ou mais alunos. Não é possível fazer a almejada "pedagogia diferenciada" no meio do caos. E depois não restam horas disponíveis para os planos de recuperação individuais.

A Formação Cívica é a única não-disciplina que define genericamente, para o 2º e 3º ciclos, alguns conteúdos. Mas não os distribui pelos 5 anos de escolaridade ou por níveis de progressão. Resultado: repetem-se os conteúdos, que são dados aleatoriamente, como quem baralha e volta a dar as mesmas cartas. Assim se descredibiliza a necessidade e pertinência dessas aprendizagens.

Para cúmulo de tudo isto, as aulas de substituição são a causa mais directa do desrespeito dos alunos pela autoridade científica dos professores.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Zero em comportamento



Não sabem estar quietos no lugar; não pedem para se levantar; interrompem permanentemente; falam vários ao mesmo tempo; não sabem escrever, não corrigem os trabalhos; não trazem material para a aula; ou não o tiram da mochila; arrastam as carteiras ruidosamente; deixam a sala desarrumada e suja; não sabem (ou não querem) executar tarefas simples de preenchimento de uma mera ficha de organização; não sabem trabalhar autonomamente; nem colaborar. Mas não são todos assim, são só demasiados para deixar que os outros possam aprender.

Como é que isto chegou aqui? Não sei bem. Acho que foi quando se instituíram as aulas de substituição e se prenderam os miúdos nas salas de aula sem propósito nem objectivo. Fazer uma ficha tornou-se um frete ou um castigo; e qualquer ficha se tornou sinónimo de amendoim para macacos. O professor que não ensina desce de nível, perde a autoridade científica, torna-se mais um auxiliar de educação, perde o respeito dos alunos. Depois a coisa propaga-se, generaliza-se, cresce, não tem limites. É uma bola de neve. Ninguém a consegue parar.

Pela mesma altura vieram as "áreas curriculares não disciplinares" - Área de Projecto, Estudo Acompanhado, Formação Cívica e ainda Assembleia de Turma (6 horas semanais no 3º ciclo) - onde não há programa organizado, não há conteúdos, há apenas os "objectivos gerais" de "desenvolver competências" de "autonomia, colaboração, responsabilidade, pesquisa e comunicação". Tudo isto - por muito boas intenções que tivesse - se tornou um pântano. A escola afunda-se neste pântano. Os professores perderam as ilusões: «É o fim da escola», dizia-me uma colega - e dizem todos.

Alguém ouvirá os professores? Não. Mas alguém melhor que os professores sabe o que fazer na escola? Ninguém. A verdade é que assim não funciona. Aliás, funciona muito pior do que dantes.

Temos que voltar ao grau zero do comportamento. E só quando se restabelecer o respeito pelos professores e a calma na sala de aula, conseguiremos ensinar alguém.

Mas como? Se os professores - nesta fase agudíssima de hecatombe da escola - se vêem coagidos por uma "avaliação de desempenho" que pretende fiscalizar a eito e por atacado o trabalho de todos num só ano? Então os professores deixam de marcar faltas disciplinares, para não confessarem a sua impotência, para não mancharem o seu currículo, para não comprometerem a sua progressão na carreira. Então, os professores passam todos os alunos, porque, se os não passarem, terão que lhes dar - a esses - aulas de apoio suplementar - mais do mesmo. E assim evitam inúteis justificações escritas e avaliações extraordinárias acerca das razões por que não passaram tal e tal aluno. O tempo em que era simples chumbar um aluno, porque ele faltava ou não fazia nada, acabou. Os alunos sabem isso e aproveitam-se. Não há qualquer sanção. São impunes.

Os professores, de missionários que eram, passaram a demissionários. Suportam tudo porque já não aguentam nada.

Professores, está na altura de passar à desobediência civil. Havemos de descobrir como.